é tão bonito
o cheiro
de livro antigo

o vento que sutilmente passa
provoca cócegas nas flores do jardim

... há uma canção silenciosa quando dormes

... meu ouvido toca teu peito...

... lentamente minha cabeça sobe e desce...

a canção silenciosa...
é como o vento que espalha as flores da primavera
é como o barquinho de papel que desce o rio
é feito sinal da cruz que faço ao acordar...

... e ao acordar, você me chama de papai...
e meus braços dançam a te proteger...
e te abraço...
e nossos corações se encontram...

Ainda que pouco me torne
Ainda que raso eu sonhe
Ainda que vago eu caminhe
Ainda que errado eu insista
Ainda que cego eu levante
Ainda que triste eu sorria
Ainda que mal eu escreva
Ainda que bem eu me sinta
Ainda que todos eu perca
Ainda que tolo eu pareça
Ainda que ela me esqueça
Ainda que inútil eu tente
Ainda que mesmo doente
Ainda que verdades eu invente
Ainda que o passado eu negue
Restará a beleza dos atos
Ainda que flores de plástico eu regue!

... na ponta dos pés... você pousou em meu coração...

... quantas primaveras são necessárias para se esquecer de um jardim?

... quando a vida nos deixa a sua sobra, todo canto é lar e qualquer canto é de tristezas e não sabemos ao certo se queremos que o tempo páre para sempre ou que passe mil anos em um segundo... é solidão, vontade estranha de apagar o passado e ser outra pessoa a quem sejamos eternamente desejados... a solidão não é quando não temos ninguém, mas sim, quando não pertencemos a ninguém!

Dentro e fora.
Você não consegue fechar os olhos porque tem medo do que irá encontrar dentro.
Fora está você em seu mundo efêmero e bem sorri para ele, embora este sorriso nunca foi de felicidade.
Você faz uma troca com o mundo: dá a ele uma imagem de você refletida no espelho, quando maquiada e perfumada está a noite para se divertir, e o mundo lhe devolve a esmola de um sonho feliz que você acha que teria se tivesse coragem de fechar os olhos e olhar dentro.
As peles tênues das suas pálpebras são as Tordesilhas da sua vida. Elas separam o que existe fora e o que existe dentro de você.
Você nunca olha nos olhos abertos das pessoas ao seu redor porque tem medo de se encontrar quando de olhos fechados elas te vêem e isto a faria mais triste do que quando de olhos fechados você dorme sozinha.
Com os seus olhos abertos você olha os olhos fechados das mesmas pessoas ao seu redor e rejeita o que elas te oferecem, pois prefere ficar com o que de olhos abertos seus olhos desejam.
Você só fecha os olhos para chorar e quando não raro isto acontece, você ouve suas lágrimas infiltrarem por entre as rachaduras da grosa parede do seu coração vazio, e seu coração é uma imensa sala de estar para os visitantes do seu caminho.
Haverá um dia que você fechará seus olhos e seus olhos olharão para você com desprezo. Quando esse dia chegar já não fará diferença alguma olhos abertos ou fechados, pois eles separarão o que nada existe fora e o que ninguém existe dentro de você.

Entre tiros e soluços

John Lennon, compositor de várias canções sobre paz e amor, foi covardemente assassinado com um tiro nas costas. Ernesto Che Guevara, médico e um dos principais líderes da revolução cubana, sofreu uma emboscada e foi executado friamente. Um hindu matou com um tiro no peito Mahatma Gandhi, um dos maiores líderes pacifistas da nossa história. Martin Luther King, pastor evangélico e líder do movimento negro, foi assassinado num quarto de hotel. O carmelita Frei Caneca, um dos maiores heróis que o Brasil já teve, foi preso e condenado à forca, como nenhum escravo ou condenado teve coragem de executa-lo, decidiram então fuzila-lo. Chico Mendes, sindicalista e ativista ambiental, foi assassinado no Acre a mando de poderosos políticos da região. Arquimedes teve o peito perfurado pela lança de um soldado romano. Tiradentes foi enforcado em praça pública. Joana D'Arc, hoje canonizada, foi queimada viva e Jesus Cristo depois de chicoteado, apedrejado e crucificado vivo, foi deixado ao relento até morrer asfixiado.

E há quem diga que o bem sempre vence no final.


... teu sorriso alonga horizontes...

... sou sempre o que ainda está por vir.
pelo pouco do pouco que me sobraram.
há quem diga que sou crônica.
há quem diga que sou conto...
desconfio ser um faz-de-contas inacabado.
sou castelo de cartas de baralho,
erguido por uma criança entediada
sou castelo de cartas de baralho
sempre esperando o vento atrasado.
sou o que sou: canção descompassada?
fiz do pôr do Sol um retrato na parede
com gosto de café amanhecido.
sou sempre o que vai, vai, vai...
sentido único.
quieto.
sozinho.
Rio.
há quem diga que sou poema.
há quem diga que sou prosa.
mas sou mesmo uma piada.
sou não-abraço.
palavra que nunca será pronunciada.
sou muito, muito, muito, muito , muito pouco,
do pouco que me sobraram...

... ela é minha reticência...

ela usava de muito maquiagem para pintar o sorriso. todo dia, ao acordar, o ritual era sempre o mesmo. diante do espelho, do mesmo espelho, por tanto tempo. para se vestir, experimentava quase todas as roupas que tinha. tão importante. com os sapatos altos se sentir maior do que qualquer um. com a bolsa pequena só levava o necessário, dinheiro e celular. e ia para a rua. toda empolgada. encontrava semelhantes. ria alto. conversa sem parar. vivia feliz da vida, por incrível que pareça. todos os dias eram assim. todos. só doía quando tinha que tomar banho.

... moça... se dedilho a tua pele não é por maldade minha,
é que preciso por demais da tua risada na minha vida...
ah... tua risada...
... jamais em outra canção ouvi tão bela harmonia...

(... à moça dos olhos verdes de primavera distante...)

para quem muito sonha
as nuvens são folhas
de papel em branco

Escrever é transformar o tédio em melodia.
É ouvir a alma cantar muda no cerne da carne que a aprisiona oculta.
É andar sozinho por entre multidões,
encarar olhares desconhecidos,
ignorá-los e seguir em frente.
Seguir em frente!
Se este é o sentido da vida,
igualmente encerra no ato da escrita o seu segredo milenar...
pois, neste mundo de incertezas,
desconheço quem escreva para trás!

... creio em Deus!
... sem Deus as coisas perderiam o peso de ser, como a inquietância do mar sem a sua calmaria... sem Deus aqui não existiria o olhar para trás e não teríamos o sentir das lembranças, mesmo que delas as tenhamos vestidas de dor e transformadas em saudade. sem Deus o futuro não passaria de um amanhã desacordado e não existira a espera de meses por uma nova vida... um pedido de desculpas à Ele pelas nossas imperfeições... sem Deus as coisas perderiam o peso de ser, como a inquietância do vento sem o perfume das flores... Deus existe sem mesmo não há... no escuro também se reza, no fechar dos olhos aflitos... Deus é a própria Esperança, a teimosia de correr, cair, se levantar e entre um fôlego e outro, sonhar... é por tê-la que a primavera sempre volta, e somente por não tê-la é que existem os suicidas.
... Creio em Deus!
... não porque eu necessite crer em algo, mas sim porque não faz sentido algum não acreditar...

... na calada da lua,
o bando de vaga-lumes revolucionários
tentam incendiar a noite...

a menininha ria tanto
que parecia ter
borboletas na barriga

atravessou a lua
de ponta a ponta
o vaga-lume cego

... melhor jeito que achei de me conhecer foi fazendo o desnecessário...

(à maneira de manoel de barros)

o que mede o tempo é a poesia...

e se por acaso fosse acontecer?

procura a lembrança mais querida...
... a que o tempo, silenciosamente,
pintou nas palmas das tuas mãos
talvez ria, talvez dê um longo suspiro...
talvez não faça mesmo nada...
ou se não nada, talvez apenas sorria...
e ao encontrar, esqueça a novamente
deixa-a perdida...

mas, mais?
minha rima, sozinha, me vicia...
e o pouco de mim que não morre luta para não sentir saudades...
e vai inventando céus e vai inventando passarinhos...
Vem-que'Flor, Alinhaço e Minha-Ninha...
Bem-Me-Quer, Girallua e Bailarina...

mas, mais?
na escuridão é que se vê vaga-lumes...
... lá vem um que quase terminei de inventar... Versinhá...

Versinhá...

...pomar em teus cabelos...

o que a pele consegue separar,
a poesia junta!

quando eu era criança
gostava de fabricar horizontes
com as linhas de crochê da minha mãe...
e se acaso fosse descoberto,
corria para o quintal de casa
para vigiar alguma borboleta que,
por ali,
suspeitamente voava...
eram tempos em que a poesia não tinha vez
tempos que não se contavam os dias
dias de sonhos e de paz...

... é de se estranhar que certos amores surgem como que para preencher o vazio de uma vida de incertezas...


... amanhã já vem quase perto de mim
e lá fora a noite triste canta uma canção sem cor,
deixando seco o gosto do encontro na boca pálida da saudade
.
... os bons dias estão a caminho...
.
mas enquanto eles não chegam,
roubei um pouco da cor do seu sorriso para pintar meus sonhos,
que faz falta na flauta doce que encanta o mundo...

... certo dia, dia comum de primavera, dei à ela uma flor...
ao receber, ela sorriu em silêncio,
muda como o perfume que segurava nas mãos...
nada mais aconteceu, mas toquei sua beleza pela fresta do mundo...

... eu quero a paz, atemporal,
de uma folha esquecida sobre o lago...