... quando a vida nos deixa a sua sobra, todo canto é lar e qualquer canto é de tristezas e não sabemos ao certo se queremos que o tempo páre para sempre ou que passe mil anos em um segundo... é solidão, vontade estranha de apagar o passado e ser outra pessoa a quem sejamos eternamente desejados... a solidão não é quando não temos ninguém, mas sim, quando não pertencemos a ninguém!

Dentro e fora.
Você não consegue fechar os olhos porque tem medo do que irá encontrar dentro.
Fora está você em seu mundo efêmero e bem sorri para ele, embora este sorriso nunca foi de felicidade.
Você faz uma troca com o mundo: dá a ele uma imagem de você refletida no espelho, quando maquiada e perfumada está a noite para se divertir, e o mundo lhe devolve a esmola de um sonho feliz que você acha que teria se tivesse coragem de fechar os olhos e olhar dentro.
As peles tênues das suas pálpebras são as Tordesilhas da sua vida. Elas separam o que existe fora e o que existe dentro de você.
Você nunca olha nos olhos abertos das pessoas ao seu redor porque tem medo de se encontrar quando de olhos fechados elas te vêem e isto a faria mais triste do que quando de olhos fechados você dorme sozinha.
Com os seus olhos abertos você olha os olhos fechados das mesmas pessoas ao seu redor e rejeita o que elas te oferecem, pois prefere ficar com o que de olhos abertos seus olhos desejam.
Você só fecha os olhos para chorar e quando não raro isto acontece, você ouve suas lágrimas infiltrarem por entre as rachaduras da grosa parede do seu coração vazio, e seu coração é uma imensa sala de estar para os visitantes do seu caminho.
Haverá um dia que você fechará seus olhos e seus olhos olharão para você com desprezo. Quando esse dia chegar já não fará diferença alguma olhos abertos ou fechados, pois eles separarão o que nada existe fora e o que ninguém existe dentro de você.

Entre tiros e soluços

John Lennon, compositor de várias canções sobre paz e amor, foi covardemente assassinado com um tiro nas costas. Ernesto Che Guevara, médico e um dos principais líderes da revolução cubana, sofreu uma emboscada e foi executado friamente. Um hindu matou com um tiro no peito Mahatma Gandhi, um dos maiores líderes pacifistas da nossa história. Martin Luther King, pastor evangélico e líder do movimento negro, foi assassinado num quarto de hotel. O carmelita Frei Caneca, um dos maiores heróis que o Brasil já teve, foi preso e condenado à forca, como nenhum escravo ou condenado teve coragem de executa-lo, decidiram então fuzila-lo. Chico Mendes, sindicalista e ativista ambiental, foi assassinado no Acre a mando de poderosos políticos da região. Arquimedes teve o peito perfurado pela lança de um soldado romano. Tiradentes foi enforcado em praça pública. Joana D'Arc, hoje canonizada, foi queimada viva e Jesus Cristo depois de chicoteado, apedrejado e crucificado vivo, foi deixado ao relento até morrer asfixiado.

E há quem diga que o bem sempre vence no final.


... teu sorriso alonga horizontes...

... sou sempre o que ainda está por vir.
pelo pouco do pouco que me sobraram.
há quem diga que sou crônica.
há quem diga que sou conto...
desconfio ser um faz-de-contas inacabado.
sou castelo de cartas de baralho,
erguido por uma criança entediada
sou castelo de cartas de baralho
sempre esperando o vento atrasado.
sou o que sou: canção descompassada?
fiz do pôr do Sol um retrato na parede
com gosto de café amanhecido.
sou sempre o que vai, vai, vai...
sentido único.
quieto.
sozinho.
Rio.
há quem diga que sou poema.
há quem diga que sou prosa.
mas sou mesmo uma piada.
sou não-abraço.
palavra que nunca será pronunciada.
sou muito, muito, muito, muito , muito pouco,
do pouco que me sobraram...

... ela é minha reticência...

ela usava de muito maquiagem para pintar o sorriso. todo dia, ao acordar, o ritual era sempre o mesmo. diante do espelho, do mesmo espelho, por tanto tempo. para se vestir, experimentava quase todas as roupas que tinha. tão importante. com os sapatos altos se sentir maior do que qualquer um. com a bolsa pequena só levava o necessário, dinheiro e celular. e ia para a rua. toda empolgada. encontrava semelhantes. ria alto. conversa sem parar. vivia feliz da vida, por incrível que pareça. todos os dias eram assim. todos. só doía quando tinha que tomar banho.

... moça... se dedilho a tua pele não é por maldade minha,
é que preciso por demais da tua risada na minha vida...
ah... tua risada...
... jamais em outra canção ouvi tão bela harmonia...

(... à moça dos olhos verdes de primavera distante...)

para quem muito sonha
as nuvens são folhas
de papel em branco

Escrever é transformar o tédio em melodia.
É ouvir a alma cantar muda no cerne da carne que a aprisiona oculta.
É andar sozinho por entre multidões,
encarar olhares desconhecidos,
ignorá-los e seguir em frente.
Seguir em frente!
Se este é o sentido da vida,
igualmente encerra no ato da escrita o seu segredo milenar...
pois, neste mundo de incertezas,
desconheço quem escreva para trás!